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Artista plástico impressiona com esculturas gigantes em Cuiabá

Amâncio Ribeiro, de 69 anos, foi exilado durante a Ditadura Militar e chegou a viver na Espanha até 1999



Foto: Bruna Barbosa/MidiaNews

As esculturas de cimento que chegam a ter mais de 12 metros de altura chamam atenção de quem passa pela Rua Barão de Melgaço, uma das principais vias do Centro de Cuiabá.

Os "gigantes de cimento" são produzidos pelo artista plástico Amâncio Ribeiro, de 69 anos. A Capital foi escolhida a dedo por ele após passar um período exilado na Espanha, durante a Ditadura Militar.

Ele afirma ter sido o único pintor a fazer parte na lista de procurados da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops) durante o regime militar em meados de 1956, por conta das fortes críticas que estampava em suas telas. A mais grave delas foi o retrato de um coronel usando uma calcinha fio dental.

A pintura foi proposital. Amâncio já sabia que estava sendo procurado pelos militares desde os 16 anos. Quando ficou sabendo de uma emboscada, que tinha como objetivo capturá-lo, foi até o local propositalmente e se entregou. Antes disso, passou alguns anos viajando e se escondendo em capitais brasileiras, como Rio de Janeiro e Salvador.

"Não estou indo embora é você quem está ficando", foi a resposta que o artista plástico se recorda de ter dado a um soldado que se aproximou para elogiar os trabalhos dele e afirmou que ele deveria ter permanecido "na linha" para não ser expulso do país.
"Nos tiraram do avião para tomarmos banho com as mangueiras de caminhões do Corpo de Bombeiros. Homens e mulheres todos pelados, tomavámos banho juntos. As mulheres nuas, algumas menstruadas. Era uma situação", contou.

Em 1999, após o fim do militarismo, o artista plástico, que é natural de Itabuna (BA), decidiu que queria conhecer o Brasil.

"Comprei um carro via Mercosul e pensei: 'Vou conhecer o Brasil'. Fiquei seis meses viajando pelo país e voltei para a Europa, me divorciei, tive dois filhos [que moram na Espanha atualmente] e decidi mudar de vez, mas não queria voltar para a Bahia. Queria ficar só ou criar uma nova família. Queria uma novidade, sempre fui assim", contou.

A notícia da viagem para a capital de Mato Grosso não foi recebida com bons olhos por amigos e familiares. Naquela época, Cuiabá ainda era um município pouco desenvolvido em termos de recursos. "Terra de pistoleiros" foi uma das justificativas que um dos contrários à mudança utilizou para que Amâncio não tomasse a decisão.

"Imaginava Cuiabá como um lugar pequeno e era isso que queria. Decidi que se não queriam que me mudassem para cá, era exatamente isso que faria", brincou.

Em meio às tratativas para comprar um espaço na Capital, Amâncio disseter sido convidado para fazer a abertura de uma exposição com Yoko Ono, em Brasília. Ela é uma das muitas personalidades que o artista plástico disse ter conhecido.

O ex-presidente Lula, os cantores Gilberto Gil, Caetano Veloso, Alceu Valença e Dominguinhos são alguns dos nomes que endossam a lista de "conhecidos" do artista plástico. Orgulhoso, ele mostra um retrato de uma roda de violão em um sítio.

No centro da imagem, o compositor de "Anunciação" aparece tocando o instrumento.

Apressado para mostrar outras "relíquias", Amâncio vai até os fundos do ateliê e volta com um chapéu nas mãos. O acessório, segundo ele, pertenceu ao cantor e sanfoneiro Dominguinhos, que, em uma passagem por Cuiabá, fez questão de ir até o local.

O artista plástico exibiu, minuciosamente, os detalhes do acessório costurado a mão e com características típicas do nordeste, durante a conversa com a reportagem.

"Todo mundo que vem aqui quer colocar na cabeça", brincou.

"No exílio, eram os sindicalistas que mais apoiavam os exilados. Durante os anos de exílio vivi apenas da minha arte, assim como em toda a minha vida. Nunca tive outra profissão a não ser fazer arte. Então, nós conversavámos, saíamos juntos algumas vezes. Cheguei a conhecer e falar com o Lula, com Gil e Caetano", disse.

Por telefone, ele formalizou e adquiriu a compra do galpão na Rua Barão de Melgaço - de onde não saiu mais. Ele também contou ter comprado uma livraria no Centro de Cuiabá, já que também estava em busca de investimentos.

Alguns meses depois, Amâncio, contrariando todas os conselhos recebidos, se mudou para Cuiabá.

"Pinto histórias"

O artista plástico contou que, quando se entregou aos militares, os outros procurados pela Ditadura ficaram surpresos por dividirem espaço com um pintor. "O que um pintor poderia ter feito para irritar o regime?", era a pergunta que Amâncio costumava ouvir.

A resposta: desde os 12 anos, quando começou a pintar e ganhar o próprio dinheiro, ele contou que já sabia qual tipo de arte gostaria de fazer, queria contar as histórias que marcam uma sociedade através das telas, pincéis e tintas.

"Quero contar história. Não pinto sem um motivo", respondeu, enquanto apontava para um dos quadros no ateliê, que retratava pessoas em um bar.

"Para fazer aquele quadro me inspirei em uma história de Jorge Amado. Minhas telas contam histórias. Se não for assim, não consigo fazer arte", continuou.

Após a ditadura, Amâncio também não poupou críticas às corrupções cometidas durante a democracia.

Ele conta que produziu uma obra inspirada em 154 capas da Revista Veja, que chegou a ser ameaçada.

"Depois descobri que haviam tentado comprar o quadro de mim para destruí-lo, queriam queimar. Fui ameaçado enquanto pintava", disse.

A tela, que foi pintada em 173 dias, fez parte de uma exposição em comemoração aos 84 anos da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT). Emocionado, os olhos de Amâncio quase se enchem de lágrimas quando revela que as obras já estão expostas no local há quase três anos.

Oficina de trabalho

É na oficina de trabalho, como ele mesmo se refere, que Amâncio passa a maior parte dos dias. O local é cercado de quadros coloridos, livros e materiais artísticos. No canto da sala, o artista plástico aponta para um armário onde guarda cachaças e uísques. "Não uso drogas. Meu vício é o uísque e adoro uma cachacinha", brincou o escultor.

Em outro ponto do galpão, uma tela gigante exibe um simpático bebê com bochechas avantajadas e cabelos ainda crescendo. "Aquele é o meu netinho", contou orgulhoso.

As telas compostas por paisagens ou retratos não são assinadas por Amâncio. Ele prefere manter a essência de seu estilo artístico, que tem como base a crítica.

Antigamente, uma mesa de sinuca ocupava a maior parte da sala. Em fotos antigas ficaram registradas as lembranças do local cheio de amigos, churrascos e bebidas.

Há 20 anos, a "oficina" do escultor é ponto de encontro de amigos, artistas e músicos. Além de chamar atenção por conta das grandes esculturas que ficam em frente ao galpão. Amâncio também está construindo uma galeria no andar de cima do ateliê.

Segredo que vai para o túmulo

O escultor contou que outros profissionais da área já tentaram arrancar dele o segredo da massa de cimento que ele usa para fazer as esculturas gigantes. Amâncio não tem uma equipe. Ele executa os trabalhos sozinhos no local e afirma que o segredo das obras vai com ele para o túmulo.

"As pessoas passam na rua e viram as cabeças para olharem quando estou trabalhando. Os motoristas de ônibus também passam mais devagar algumas vezes", brincou.

Algumas das estátuas possuem histórias curiosas, que o artista plástico se apressa para contar. Como os pés gigantes de um soldado, que nunca foi terminado por conta dos pagamentos que foram suspensos. Amâncio, porém, conta que a obra é patrimônio do Exército e resolveu deixá-la no mesmo local.

Outrora perseguido por militares, o escultor passou a ser requisitado por eles para produzir obras em homenagem aos soldados, ironia que lhe faz esboçar um curto sorriso.

Exemplo disso é escultura do soldado Queiroga, que segura uma criança nos braços. A obra foi colocada no 1º Batalhão da Polícia Militar, em Cuiabá.

Amâncio também já produziu um dos "gigantes de cimento" para o Hospital Militar, também na Capital.

Apesar de produzir peças exuberantes tanto no tamanho quanto nas características realistas, Amâncio prefere levar uma vida simples. Um dos "causos" contados pelo artista plástico envolve uma vista ao Palácio Paiaguás para uma reunião com o então governador Blairo Maggi.

"Fui o primeiro e único artista a ser recebido de bermuda pelo governador. Ele [Blairo Maggi] pediu para entrarem em contato comigo. Na entrada, encontrei um amigo que ficou espantado por eu não estar de terno. Na hora, o Blairro Maggi saiu da janela e me chamou para entrar", falou enquanto ria e mostrava outro retrato.

"Olha eu de bermuda de novo. 'Tá doido' usar terno, coisa de velório", finalizou.





Fonte: Midia News/ Foto: Bruna Barbosa/MidiaNews

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